quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"Educação após Auschwitz"

Pessoal
Segue um texto sobre Educação após Auschwitz de Theodor Adorno que foi indicado pelo Professor Marcos Horácio na aula do dia 28SET10.
O texto foi extraído do site www.4shared.com, em 28set10, às 16:10, traduzido por Wolfgang Leo Maar.

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EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ
Theodor Adorno
A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela
precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender
como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda
monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões
que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da
possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das
pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a
essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação.
Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a
regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as
condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos
infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é
indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos
proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais
perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece
progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios
O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se
a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de
desesperador.
A reflexão a respeito de como evitar a repetição de Auschwitz é obscurecida pelo fato de precisarmos
nos conscientizar desse elemento desesperador, se não quisermos cair presas da retórica idealista.
Mesmo assim é preciso tentar, inclusive porque tanto a estrutura básica da sociedade como os seus
membros, responsáveis por termos chegado onde estamos, não mudaram nesses vinte e cinco anos.
Milhões de pessoas inocentes ---- e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno,
quanto mais discutir quantidades foram assassinadas de uma maneira planejada. Isto não pode ser
minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, como sendo uma aberração
no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento,
do humanismo supostamente crescente. O simples fato de ter ocorrido já constitui por si só expressão
de uma tendência social imperativa. Nesta medida gostaria de remeter a um evento, que de um modo
muito sintomático parece pouco conhecido na Alemanha, apesar de constituir a temática de um
best-seller como Os quarenta dias de Musa Dagh, de Werfel. Já na Primeira Guerra Mundial os turcos
- o assim chamado movimento turco jovem dirigido por Enver Pascha e Talaat Pascha
mandaram assassinar mais de um milhão de armênios. Importantes quadros militares e governamentais, embora, ao que tudo indica, soubessem do ocorrido, guardaram sigilo estrito, O genocídio tem suas raízes naquela ressurreição do nacionalismo agressor que vicejou em muitos países a partir do fim do século XIX.
Além disso não podemos evitar ponderações no sentido de que a invenção da bomba atômica, capaz de
matar centenas de milhares literalmente de um só golpe, insere-se no mesmo nexo histórico que o
genocídio. Tornou-se habitual chamar o aumento súbito da população de explosão populacional: parece
que a fatalidade histórica, para fazer frente à explosão populacional, dispõe também de
contra-explosões, o morticínio de populações inteiras. Isto só para indicar como as forças às quais é
preciso se opor integram o curso da história mundial.
Como hoje em dia é extremamente limitada a possibilidade de mudar os pressupostos objetivos, isto é,
sociais e políticos que geram tais acontecimentos, as tentativas de se contrapor à repetição de
Auschwitz são irnpelidas necessariamente para o lado subjetivo. Com isto refiro-me sobretudo também à
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pretextos mais mesquinhos. Torna-se necessário o que a esse respeito uma vez denominei de inflexão
em direção ao sujeito. É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer
tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem
novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses
mecanismos. Os culpados não são os assassinados, nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que
ainda hoje seria do agrado de alguns. Culpados são unicamente os que, desprovidos de consciência,
voltaram Contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. E necessário contrapor-se a uma tal ausência
de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem refletir a respeito de si
próprias. A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.
Contudo, na medida em que, conforme os ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive
daqueles que mais tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem por
objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância. Já mencionei a tese de Freud
acerca do mal-estar na cultura. Ela é ainda mais abrangente do que ele mesmo supunha: sobretudo
porque, entrementes, a pressão civilizatória observada por ele multiplicou-se em uma escala
insuportável. Por essa via as tendências à explosão a que ele atentara atingiriam uma violência que ele
dificilmente poderia imaginar. porém o mal-estar na cultura tem seu lado social ---- o que Freud sabia,
embora não o tenha investigado concretamente. É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo
administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada,
como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao
mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a
civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional.
Um esquema sempre confirmado na história das perseguições é o de que a violência contra os fracos se
dirige principalmente contra os que são considerados socialmente fracos e ao mesmo tempo ---- seja isto
verdade ou não - felizes. De uma perspectiva sociológica eu ousaria acrescentar que nossa sociedade, ao mesmo tempo em que se integra cada vez mais, gera tendências de desagregação.
Essas tendências encontram-se bastante desenvolvidas logo abaixo da superfície da vida civilizada e
ordenada. A pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens individualmente e as
instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o particular e individual juntamente com seu
potencial de resistência. Junto com sua identidade e seu potencial de resistência, as pessoas também
perdem suas qualidades, graças a qual têm a capacidade de se contrapor ao que em qualquer tempo
novamente seduz ao crime. Talvez elas mal tenham condições de resistir quando lhes é ordenado pelas
forças estabelecidas que repitam tudo de novo, desde que apenas seja em nome de quaisquer ideais de
pouca ou nenhuma credibilidade.
Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil,
sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual,
cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao
horror tornem-se de algum modo conscientes. Evidentemente não tenho a pretensão de sequer esboçar
o projeto de uma educação nesses termos. Contudo, quero ao menos indicar alguns pontos nevrálgicos.
Com freqüência por exemplo, nos Estados Unidos - o espirito germânico de confiança na autoridade
foi responsabilizado pelo nazismo e também por Auschwitz. Considero esta afirmação excessivamente
superficial, embora na Alemanha, como em muitos outros países europeus, comportamentos autoritários
e autoridades cegas perdurem com mais tenacidade sob os pressupostos da democracia formal do que
se ~ 4ueira reconhecer. Antes é de se supor que o fascismo e o horror que produziu se relacionam com
o fato de que as antigas e consolidadas autoridades do império haviam ruído e se esfacelado, mas as
pessoas ainda não se encontravam psicologicamente preparadas para a autodeterminação. Elas não se
revelaram à altura da liberdade com que foram presenteadas de repente. É por isso que as estruturas de
autoridade assumiram aquela dimensão destrutiva e ---- por assim dizer
de desvario que antes, ou
não possuíam, ou seguramente não revelavam. Quando lembramos que visitantes de quaisquer
potentados. já politicamente desprovidos de qualquer função real, levam populações inteiras a explosões
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de êxtase, então se justifica a suspeita de que o potencial autoritário permanece muito mais forte do que
o imaginado. Porém quero enfatizar com a maior intensidade que o retorno ou não retorno do fascismo
constitui em seu aspecto mais decisivo uma questão social e não uma questão psicológica. Refiro-me
tanto ao lado psicológico somente porque os demais momentos, mais essenciais, em grande medida
escapam à ação da educação, quando não se subtraem inteiramente à interferência dos indivíduos.
Freqüentemente pessoas bem-intencionadas e que se opõem a que tudo aconteça de novo citam o
conceito de vínculos de compromisso. A ausência de compromissos das pesssoas seria responsável
pelo que aconteceu. Isto efetivamente tem a ver com a perda da autoridade, uma das condições do
pavor sadomasoquista. É plausível para o entendimento humano sadio evocar compromissos que
detenham o que é sádico, destrutivo, desagregador, mediante um enfático "não deves". Ainda assim
considero ser uma ilusão imaginar alguma utilidade no apelo a vínculos de compromisso ou até mesmo
na exigência de que se reestabeleçam vinculações de compromisso para que o mundo e as pessoas
sejam melhores. A falsidade de compromissos que se exige somente para que provoquem alguma coisa
- mesmo que esta seja boa ----, sem que eles sejam experimentados por si mesmos como sendo
substanciais para as pessoas, percebe-se muito prontamente. E espantosa a rapidez com que até
mesmo as pessoas mais ingênuas e tolas reagem quando se trata de descobrir as fraquezas dos
superiores. Facilmente os chamados compromissos convertem-se em passaporte moral --
são
assumidos com o objetivo de identificar-se como cidadão confiável
ou então produzem rancores
raivosos psicologicamente contrários à sua destinação original. Eles significam uma heteronomia, um
tornar-se dependente de mandamentos, de normas que não são assumidas pela razão própria do
indivíduo, O que a psicologia denomina superego, a consciência moral, é substituído no contexto dos
compromissos por autoridades exteriores, sem compromisso, intercambiáveis, como foi possível
observar com muita nitidez também na Alemanha depois da queda do Terceiro Reich. Porém justamente
a disponibilidade em ficar do lado do poder, tomando exteriormente como norma curvar-se ao que é
mais forte, constitui aquela índole dos algozes que nunca mais deve ressurgir. Por isto a recomendação
dos compromissos é tão fatal. As pessoas que os assumem mais ou menos livremente são colocadas
numa espécie de permanente estado de exceção de comando. O único poder efetivo contra o princípio
de Auschwitz seria autonomia, para usar a expressão kantiana; o poder para a reflexão, a
autodeterminação, a não-participação.
Certa feita uma experiência me assustou muito: numa viagem ao lago de Constância, eu lia num jornal
de Baden em que se informava acerca da peça Mortos sem sepuItura, de Sartre, que representa as
situações mais terríveis. A peça incomodava visivelmente o critico. Mas ele não explicou este incômodo
mediante o horror da coisa que constitui o horror de nosso mundo, mas torceu a questão como se, frente
a uma posição como a de Sartre, que se ocupara do problema, nós tivéssemos, por assim dizer, um
sentido para algo mais nobre: que não poderíamos reconhecer a ausência de sentido do horror.
Resumindo: o critico procurava se subtrair ao confronto com o horror graças a um sofisticado palavrório
existencial. O perigo de que tudo aconteça de novo está em que não se admite o contato com a questão.
rejeitando até mesmo quem apenas a menciona, como se, ao fazê-lo sem rodeios, este se tomasse o
responsável, e não os verdadeiros culpados.
Em relação ao problema de autoridade e barbárie considero importante um aspecto que geralmente
passa quase despercebido. Ele é mencionado numa observação do livro O Estado da SS, de Eugen
Kogon, que contém abordagens importantes deste todo complexo e que não recebeu a atenção
merecida por parte da ciência e da pedagogia. Kogon afirma que os algozes do campo de concentração
em que ele mesmo passou anos eram em sua maioria jovens filhos de camponeses. A diferença cultural
ainda persistente entre a cidade e o campo constitui uma das condições do horror, embora certamente
não seja nem a única nem a mais importante. Repudio qualquer sentimento de superioridade em relação
à população rural. Sei que ninguém tem culpa por nascer na cidade ou se formar no campo. Mas registro
apenas que provavelmente no campo o insucesso da desbarbarização foi ainda maior. Mesmo a
televisão e os outros meios de comunicação de massa, ao que tudo indica, não provocaram muitas
mudanças na situação de defasagem cultural. Parece-me mais correto afirmar isto e procurar uma
mudança do que elogiar de uma maneira nostálgica quaisquer qualidades especiais da vida rural
ameaçadas de desaparecer. Penso até que a desbarbarização do campo constitui um dos objetivos
educacionais mais importantes. Evidentemente ela pressupõe um estudo da consciência e do
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inconsciente da respectiva população. Sobretudo é preciso atentar ao impacto dos modernos meios de
comunicação de massa sobre um estado de consciência que ainda não atingiu o nível do liberalismo
cultural burguês do século XIX.
Para mudar essa situação, o sistema normal de escolarização, freqüentemente bastante problemático no
campo, seria insuficiente. Penso numa série de possibilidades. Uma seria e estou improvisando o
planejamento de transmissões de televisão atendendo pontos nevrálgicos daquele peculiar estado de
consciência. Além disto, imagino a formação de grupos e colunas educacionais móveis de voluntários
que se dirijam ao campo e procurem preencher as lacunas mais graves por meio de discussões, de
cursos e de ensino suplementar. Naturalmente sei que dificilmente essas pessoas serão muito
bem-vistas. Mas com o passar do tempo se estabelecerá um pequeno círculo que se imporá e que talvez
tenha condições de se irradiar.
Entretanto não deve haver nenhum mal-entendido quanto à inclinação arcaica pela violência existente
também nas cidades, principalmente nos grandes centros. Tendências de regressão
ou seja, pessoas
com traços sádicos reprimidos
são produzidas por toda parte pela tendência social geral. Nessa
medida quero lembrar a relação perturbada e patogênica com o corpo que Horkheimer e eu
descrevemos na Dialética do esclarecimento. Em cada situação em que a consciência é mutilada, isto se
reflete sobre o corpo e a esfera corporal de uma forma não-livre e que é propicia à violência. Basta
prestar atenção em um certo tipo de pessoa inculta como até mesmo a sua linguagem --
principalmente quando algo é criticado ou exigido
se torna ameaçadora, como se os gestos da fala
fossem de uma violência corporal quase incontrolada. Aqui seria preciso estudai também a função do
esporte. que ainda não foi devidamente reconhecida por uma psicologia social crítica. O esporte é
ambíguo: por um lado, ele pode ter um efeito contrário à barbárie e ao sadismo, por intermédio do
fairplay, do cavalheirismo e do respeito pelo mais fraco. Por outro, em algumas de suas modalidades e
procedimentos, ele pode promover a agressão a brutalidade C o sadismo, principalmente no caso de
espectadores. que pessoalmente não estão submetidos ao esforço e à. disciplina do esporte; são
aqueles que costumam gritar nos campos esportivos. É preciso analisar de uma maneira sistemática
essa ambigüidade. Os resultados teriam que ser aplicados à vida esportiva na medida da influência da
educação sobre a mesma.
Tudo isso se relaciona de um modo ou outro à velha estrutura vinculada à autoridade, a modos de agir
---- eu quase diria
do velho e bom caráter autoritário. Mas aquilo que gera Auschwitz, os tipos
característicos ao mundo de Auschwitz, constituem presumivelmente algo de novo. Por um lado, eles
representam a identificação cega com o coletivo. Por outro, são talhados para manipular massas,
coletivos, tais como os Himmler, Höss, Eichmann. Considero que o mais importante para enfrentar o
perigo de que tudo se repita é contrapor-se ao poder cego de todos os coletivos, fortalecendo a
resistência frente aos mesmos por meio do esclarecimento do problema da coletivização. Isto não é tão
abstrato quanto passa parecer ao entusiasmo participativo. especialmente das pessoas jovens, de
consciência progressista. O ponto de partida poderia estar no sofrimento que os coletivos infligem e se
filiam a eles. Basta pensar nas primeiras experiências de cada um na escola. ~ preciso se opor àquele
tipo de folk-ways, hábitos populares, ritos de iniciação de qualquer espécie, que infligem dor física
muitas vezes insuportável -
a uma pessoa como preço do direito de ela se sentir um filiado, um
membro do coletivo. A brutalidade de hábitos tais como os trotes de qualquer ordem, ou quaisquer
outros costumes arraigados desse tipo, é precursora imediata da violência nazista. Não foi por acaso
que os nazistas enalteceram e cultivaram tais barbaridades com o nome de "costumes". Eis aqui um
campo muito atual para a ciência. Ela poderia inverter decididamente essa tendência da etnologia
encampada com entusiasmo pelos nazistas, para refrear esta sobrevida simultaneamente brutal e
fantasmagórica desses divertimentos populares.
Tudo isso tem a ver com um pretenso ideal que desempenha um papel relevante na educação
tradicional em geral: a severidade. Esta pode até mesmo remeter a uma afirmativa de Nietzsche, por
mais humilhante que seja e embora ele na verdade pensasse em outra coisa. Lembro que durante o
processo sobre Auschwitz, em um de seus acessos, o terrível Boger culminou num elogio à educação
baseada na força e voltada à disciplina. Ela seria necessária para constituir o tipo de homem que lhe
parecia adequado. Essa idéia educacional da severidade, em que irrefletidamente muitos podem até
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acreditar, é totalmente equivocada. A idéia de que a virilidade consiste num grau máximo da capacidade
de suportar dor de há muito se converteu em fachada de um masoquismo que como mostrou a
psicologia se identifica com muita facilidade ao sadismo. O elogiado objetivo de "ser duro" de uma tal
educação significa indiferença contra a dor em geral. No que, inclusive, nem se diferencia tanto a dor do
outro e a dor de si próprio. Quem é severo consigo mesmo adquire o direito de ser severo também com
os outros, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar e reprimir. Tanto é necessário tornar
consciente esse mecanismo quanto se impõe a promoção de uma educação que não premia a dor e a
capacidade de suportá-la, como acontecia antigamente. Dito de outro modo: a educação precisa levar a
sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o
medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exige,
então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo
inconsciente e reprimido.
Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material,
dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como
sendo uma massa amorfa. Para os que se comportam dessa maneira utilizei o termo "caráter
manipulador" em Authoritarian personality (A personalidade autoritária), e isto quando ainda não se
conhecia o diário de Höss ou as anotações de Eichmann. Minhas descrições do caráter manipulador
datam dos últimos anos da Segunda Guerra Mundial. Às vezes a psicologia social e a sociologia
conseguem construir conceitos confirmados empiricamente só muito tempo depois. O caráter
manipulador
e qualquer um pode acompanhar isto a partir das fontes disponíveis acerca desses
lideres nazistas - se distingue pela fúria organizativa, pela incapacidade total de levar a cabo
experiências humanas diretas, por um certo tipo de ausência de emoções, por um realismo exagerado. A
qualquer custo ele procura praticar uma pretensa, embora delirante, realpolitik. Nem por um segundo
sequer ele imagina o mundo diferente do que ele é, possesso pela vontade de doing things, de fazer
coisas, indiferente ao conteúdo de tais ações. Ele faz do ser atuante, da atividade, da chamada
efficiency enquanto tal, um culto, cujo eco ressoa na propaganda do homem ativo. Este tipo encontra-se,
entrementes
a crer em minhas observações e generalizando algumas pesquisas sociológicas ----,
muito mais disseminado do que se poderia imaginar. O que outrora era exemplificado apenas por alguns
monstros nazistas pode ser constatado hoje a partir de casos numerosos, como delinqüentes juvenis,
lideres de quadrilhas e tipos semelhantes, diariamente presentes no noticiário. Se fosse obrigado a
resumir em uma fórmula esse tipo de caráter manipulador
o que talvez seja equivocado embora útil à
compreensão
eu o denominaria de o tipo da consciência coisificada. No começo as pessoas desse
tipo se tornam por assim dizer iguais a coisas. Em seguida, na medida em que o conseguem, tornam os
outros iguais a coisas. Isto é muito bem traduzido pela expressão aprontar, que goza de igual
popularidade entre os valentões juvenis e entre os nazistas. Esta expressão aprontar define as pessoas
como sendo coisas aprontadas em seu duplo sentido. Conforme Max Horkheimer, a tortura é a
adaptação controlada e devidamente acelerada das pessoas aos coletivos. Algo disso encontra-se no
espirito da época, por menos procedente que seja falar em espírito nesses termos. Enfim, resumirei
citando Paul Valéry, que antes da última Guerra Mundial disse que a desumanidade teria um grande
futuro. É particularmente difícil confrontar esta questão porque aquelas pessoas manipuladoras, no
fundo incapazes de fazer experiências, por isto mesmo revelam traços de incomunicabilidade, no que se
identificam com certos doentes mentais ou personalidades psicóticas.
Nas tentativas de atuar contrariamente à repetição de Auschwitz pareceu.me fundamental produzir
inicialmente uma certa clareza acerca do modo de constituição do caráter manipulador, para em seguida
poder impedir da melhor maneira possível a sua formação, pela transformação das condições para tanto.
Quero fazer uma proposta concreta: utilizar todos os métodos científicos disponíveis, em especial
psicanálise durante muitos anos, para estudar os culpados por Auschwitz, visando se possível descobrir
como uma pessoa se torna assim. O que aqueles ainda podem fazer de bom é contribuir, em
contradição com a própria estrutura de sua personalidade, no sentido de que as coisas não se repitam. E
essa contribuição só ocorreria na medida em que colaborassem na investigação de sua gênese.
Obviamente seria difícil levá-los a falar; em nenhuma hipótese poder-se-ia aplicar qualquer procedimento
semelhante a seus próprios métodos para aprender como eles se tornaram do jeito que são. De
qualquer modo, entrementes eles se sentem
justamente em seu coletivo, com a sensação de que
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todos são velhos nazistas -- tão protegidos, que praticamente nenhum demonstrou nem ao menos
remorsos. Porém presumivelmente também neles, ou em alguns deles, existem pontos de apoio
psicológicos mediante os quais seria possível mudar isto, como, por exemplo, seu narcisismo, ou, dito
simplesmente, seu orgulho. Eles se sentirão importantes ao poder falar livremente a seu respeito, tal
como Eichmann, cujas falas aparentemente preenchem fileiras inteiras de volumes. Finalmente, é de
supor que também nessas pessoas, aprofundando-se suficientemente a busca, existam restos da velha
instância da consciência moral que se encontra atualmente em grande parte em processo de dissolução.
Na medida em que se conhecem as condições internas e externas que os tornaram assim
pressupondo por hipótese que esse conhecimento é possível , seria possível tirar conclusões práticas
que impeçam a repetição de Auschwitz. A utilidade ou não de semelhante tentativa só se mostrará após
sua concretização; não pretendo superestimá-la. É preciso lembrar que as pessoas não podem ser
explicadas automaticamente a partir de condições como estas. Em condições iguais alguns se tornaram
assim, e Outros de um jeito bem diferente. Mesmo assim valeria a pena. O mero questionamento de
como se ficou assim já encerraria um potencial esclarecedor. Pois um dos momentos do estado de
consciência e de inconsciência daninhos está em que seu ser-assim que se é de um determinado
modo e não de outro ---- é apreendido equivocadamente como natureza, como um dado imutável e não
como resultado de uma formação. Mencionei o conceito de consciência coisificada. Esta é sobretudo
uma consciência que se defende em relação a qualquer vir-a-ser, frente a qualquer apreensão do próprio
condicionamento, impondo como sendo absoluto o que existe de um determinado modo. Acredito que o
rompimento desse mecanismo impositivo seria recompensador.
No que diz respeito à consciência coisificada, além disto é preciso examinar também a relação com a
técnica, sem restringir-se a pequenos grupos. Esta relação é tão ambígua quanto a do esporte, com que
aliás tem afinidade. Por um lado, é certo que todas as épocas produzem as personalidades
tipos de
distribuição da energia psíquica
de que necessitam socialrnente. Um mundo em que a técnica ocupa
uma posição tão decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a
técnica. Isto tem a sua racionalidade boa: em seu plano mais restrito elas serão menos influenciáveis,
com as correspondentes conseqüências no plano geral. Por outro lado, na relação atual com a técnica
existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se vincula ao "véu tecnológico". Os homens
inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força
própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. Os meios
e a técnica é um
conceito de meios dirigidos à autoconservação da espécie humana
são fetichizados, porque os fins
uma vida humana digna
encontram-se encobertos e desconectados da consciência das pessoas.
Afirmações gerais como estas são até convincentes. Porém uma tal hipótese ainda é excessivamente
abstrata. Não se sabe com certeza como se verifica a fetichização da técnica na psicologia individual dos
indivíduos, onde está o ponto de transição entre uma relação racional com ela e aquela
supervalorização, que leva, em última análise, quem projeta um sistema ferroviário para conduzir as
vitimas a Auschwitz com maior rapidez e fluência, a esquecer o que acontece com estas vítimas em
Auschwitz. No caso do tipo com tendências à fetichização da técnica, trata-se simplesmente de pessoas
incapazes de amar. Isto não deve ser entendido num sentido sentimental ou moralizante, mas
denotando a carente relação libidinal com Outras pessoas. Elas são inteiramente frias e precisam negar
também em seu íntimo a possibilidade do amor, recusando de antemão nas outras pessoas o seu amor
antes que o mesmo se instale. A capacidade de amar, que de alguma maneira sobrevive, eles precisam
aplicá-la aos meios. As personalidades preconceituosas e vinculadas à autoridade com que nos
ocupamos em Authoritarian Personality, em Berkeley, forneceram muitas evidências neste sentido. Um
sujeito experimental ---- e a própria expressão já é do repertório da consciência coisificada -
afirmava
de si mesmo: "I like nice equipament" (Eu gosto de equipamentos, de instrumentos bonitos),
independentemente dos equipamentos em questão. Seu amor era absorvido por coisas, máquinas
enquanto tais. O perturbador
porque torna tão desesperançoso atuar contrariamente a isso
é que
esta tendência de desenvolvimento encontra-se vinculada ao conjunto da civilização. Combatê-lo
significa o mesmo que ser contra o espírito do mundo; e desta maneira apenas repito algo que
apresentei no começo como sendo o aspecto mais obscuro de uma educação contra Auschwitz.
Afirmei que aquelas pessoas eram frias de um modo peculiar. Aqui vêm a propósito algumas palavras
acerca da frieza. Se ela não fosse um traço básico da antropologia, e, portanto, da constituição humana
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como ela realmente é em nossa sociedade; se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em
relação ao que acontece com todas as outras, executando o punhado com que mantêm vínculos
estreitos e possivelmente por intermédio de alguns interesses concretos, então Auschwitz não teria sido
possível, as pessoas não o teriam aceito. Em sua configuração atual e provavelmente há milênios -
a sociedade não repousa em atração, em simpatia, como se supôs ideologicamente desde Aristóteles,
mas na persecução dos próprios interesses frente aos interesses dos demais. Isto se sedimentou do
modo mais profundo no caráter das pessoas. O que contradiz, o impulso grupal da chamada lonely
crowd, da massa solitária, na verdade constitui uma reação, um enturmar-se de pessoas frias que não
suportam a própria frieza mas nada podem fazer para alterá-la. Hoje em dia qualquer pessoa, sem
exceção, se sente mal-amada, porque cada um é deficiente na capacidade de amar. A incapacidade
para a identificação foi sem dúvida a condição psicológica mais importante para tornar possível algo
como Auschwitz em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas. O que se chama de
"participação oportunista" era antes de mais nada interesse prático: perceber antes de tudo a sua própria
vantagem e não dar com a língua nos dentes para não se prejudicar. Esta é uma lei geral do existente. O
silêncio sob o terror era apenas a conseqüência disto. A frieza da mônada social, do concorrente isolado,
constituía, enquanto indiferença frente ao destino do outro, o pressuposto para que apenas alguns raros
se mobilizassem. Os algozes sabem disto; e repetidamente precisam se assegurar disto.
Não me entendam mal. Não quero pregar o amor. Penso que sua pregação é vã: ninguém teria inclusive
o direito de pregá-lo, porque a deficiência de amor, repito, é uma deficiência de todas as pessoas, sem
exceção, nos termos em que existem hoje. Pregar o amor pressupõe naqueles a quem nos dirigimos
uma outra estrutura do caráter, diferente da que pretendemos transformar. Pois as pessoas que
devemos amar são elas próprias incapazes de amar e por isto nem são tão amáveis assim. Um dos
grandes impulsos do cristianismo, a não ser confundido com o dogma, foi apagar a frieza que tudo
penetra. Mas esta tentativa fracassou; possivelmente porque não mexeu com a ordem social que produz
e reproduz a frieza. Provavelmente até hoje nunca existiu aquele calor humano que todos almejamos, a
não ser durante períodos breves e em grupos bastante restritos, e talvez entre alguns selvagens
pacíficos. Os utópicos freqüentemente ridicularizados perceberam isto. Charles Fourier, por exemplo,
definiu a atração como algo ainda por ser constituído por uma ordem social digna de um ponto de vista
humano. Também reconheceu que esta situação só seria possível quando os instintos não fossem mais
reprimidos, mas satisfeitos e liberados. Se existe algo que pode ajudar contra a frieza como condição da
desgraça, então trata-se do conhecimento dos próprios pressupostos desta, bem como da tentativa de
trabalhar previamente no plano individual contra esses pressupostos. Agrada pensar que a chance é
tanto maior quanto menos se erra na infância, quanto melhor são tratadas as crianças. Mas mesmo aqui
pode haver ilusões. Crianças que não suspeitam nada da crueldade e da dureza da vida acabam por ser
particularmente expostas à barbárie depois que deixam de ser protegidas. Mas, sobretudo, não é
possível mobilizar para o calor humano pais que são, eles próprios, produtos desta sociedade, cujas
marcas ostentam. O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o
próprio calor. Além disto o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas,
como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório
com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor ----- provavelmente na forma
mais imperativa, de um dever
constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele
combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o
primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi
gerada.
Para terminar gostaria ainda de discorrer brevemente a respeito de algumas possibilidades de
conscientização dos mecanismos subjetivos em geral, sem os quais Auschwitz dificilmente aconteceria.
O conhecimento desses mecanismos é uma necessidade; da mesma forma também o é o conhecimento
da defesa estereotipada, que bloqueia uma tal consciência. Quem ainda insiste em afirmar que o
acontecido nem foi tão grave assim já está defendendo o que ocorreu, e sem dúvida seria capaz de
assistir ou colaborar se tudo acontecesse de novo. Mesmo que o esclarecimento racional não dissolva
diretamente os mecanismos inconscientes
conforme ensina o conhecimento preciso da psicologia ,
ele ao menos fortalece na pré-consciência determinadas instâncias de resistência, ajudando a criar um
clima desfavorável ao extremismo. Se a consciência cultural em seu conjunto fosse efetivamente
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perpassada pela premonição do caráter patogênico dos traços que se revelaram com clareza em
Auschwitz, talvez as pessoas tivessem evitado melhor aqueles traços.
Além disso seria necessário esclarecer quanto à possibilidade de haver um outro direcionamento para a
fúria ocorrida em Auschwitz. Amanhã pode ser a vez de um outro grupo que não os judeus, por exemplo
os idosos, que escaparam por pouco no Terceiro Reich, ou os intelectuais, ou simplesmente alguns
grupos divergentes. O clima ---- e quero enfatizar esta questão
mais favorável a um tal ressurgimento
é o nacionalismo ressurgente. Ele é tão raivoso justamente porque nesta época de comunicações
internacionais e de blocos supranacionais já não é mais tão convicto, obrigando-se ao exagero
desmesurado para convencer a si e aos outros que ainda têm substância.
De qualquer modo, haveria que mostrar as possibilidades concretas da resistência. Por exemplo, a
história dos assassinatos por eutanásia, que acabaram não sendo cometidos na dimensão pretendida
pelos nazistas na Alemanha, graças a resistência manifestada. A resistência limitava-se ao próprio
grupo; e justamente este é um sintoma bastante notável e amplo da frieza geral. Além de tudo, porém,
ela é limitada também em face da insaciabilidade presente no princípio das perseguições. Em última
instância, qualquer pessoa não-pertencente ao grupo perseguidor pode ser atingida; portanto, existe um
interesse egoísta drástico a que se poderia apelar. Enfim, seria necessário indagar pelas condições
específicas, históricas, das perseguições. Em uma época em que o nacionalismo é antiquado, os
chamados movimentos de renovação nacional são, ao que tudo indica, particularmente sujeitos a
práticas sádicas.
Finalmente, o centro de toda educação política deveria ser que Auschwitz não se repita. Isto só será
possível na medida em que ela se ocupe da mais importante das questões sem receio de contrariar
quaisquer potências. Para isto teria de se transformar em sociologia, informando acerca do jogo de
forças localizado por trás da superfície das formas políticas. Seria preciso tratar criticamente um conceito
tão respeitável como o da razão de Estado, para citar apenas um modelo: na medida em que colocamos
o direito do Estado acima do de seus integrantes, o terror já passa a estar potencialmente presente.
Em Paris, durante a emigração, quando eu ainda retornava esporadicamente à Alemanha, certa vez
Walter Benjamin me perguntou se ali ainda havia algozes em número suficiente para executar o que os
nazistas ordenavam. Havia. Apesar disto a pergunta é profundamente justificável. Benjamm percebeu
que, ao contrário dos assassinos de gabinete e dos ideólogos, as pessoas que executam as tarefas
agem em contradição com seus próprios interesses imediatos, são assassinas de si mesmas na medida
em que assassinam os outros. Temo que será difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete,
por mais abrangentes que sejam as medidas educacionais. Mas que haja pessoas que, em posições
subalternas, enquanto serviçais, façam coisas que perpetuam sua própria servidão, tornando-as
indignas; que continue a haver Bojeis e Kaduks, contra isto é possível empreender algo mediante a
educação e o esclarecimento.

Tradução: Wolfgang Leo Maar
EDUCAÇÃO ON-LINE
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sábado, 25 de setembro de 2010

Revistas Cientificas e Links para pesquisa

Link de revistas que ajudarão na confecção dos artigos

Especificas

Revista Afroasia

Revista Estudos Afro Asiaticos

África: Revista do Centro de Estudos Africanos da USP


Gerais (História do Brasil)

Revista Brasileira de História

Revista Tempo

Espaço de Pesquisa com textos On line

Centros Diversos

Boa Leitura Washington

Sugestões para a confecção do Artigo

Prezados algumas sugestões para a confecção do artigo final da disciplina:

1) Todo artigo tem que ter um problema de pesquisa que gerará uma pergunta.
Vejamos alguns exemplos dados a partir de temas de voces:

--> Como o proprio indio entende o dia do indio?
--> Quais os mecanimos de luta dos proprios escravos para conseguirem sua alforria??

2) È preciso sempre deixar claro no artigo qual o tempo e qual será o espaço da analise a ser feita.

3) È preciso sempre referenciar seu texto, ou seja, toda informação dada no texto tem que vir de alguma fonte (primária: documentos... ou secundária: livros, artigos...)

Bom Trabalho

prof. Washington

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Um texto de apoio para a disciplina do Professor Washington.

Para quem perdeu alguma aula do Professor Washington e para quem quer se aprofundar mais no assunto, segue um texto da jornalista e doutorando em história, Sílvia Capanema P. de Almeida, que irá nos ajudar muito sobre as discussões em sala de aula.
Não deixem de ler, pois é muito esclarecedor.
Somos ou não somos Racistas?
Eis a questão que desafia legisladores, intelectuais, cientistas e historiadores há mais de um século, em uma nação que é tão mestiça quanto desigual.
por Sílvia Capanema P. de Almeida
O jornalista e cientista social Ali Kamel publicou o livro Não somos racistas (Nova Fronteira). Trata-se, como o subtítulo indica, de "uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor". O livro defende a idéia de que compomos uma nação predominantemente mestiça e que o racismo existe como manifestação minoritária e não institucional, sendo a pobreza o principal problema do país. Pretende criticar as reivindicações do movimento negro e os projetos de adoção de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.Do outro lado do debate, há vozes que defendem a tese de que o elogio da mestiçagem brasileira tem caráter ideológico, tendendo a esconder o racismo existente no país e a exclusão do negro ao longo dos cinco séculos de formação do Brasil. Esse é o pensamento do antropólogo Kabengele Munanga em seu Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (Autêntica, 2004) Para se situar nessa discussão, seria interessante compreender o contexto dos períodos anterior e posterior à abolição. O processo de abolição não pode ser resumido ao 13 de maio de 1888. Por trás da data histórica, o comportamento da população negra no país mostra a existência de uma realidade muito mais complexa. Por um lado, antes mesmo da abolição, ser negro já não significava mais exatamente ser escravo. Pesquisas recentes apontam que apenas 5% do total da população negra ou parda do país era escrava às vésperas da extinção da escravidão. O grande número de alforrias por reconhecimento, laços pessoais e familiares, compras, entre outros fatores, mostrava que já havia muitos negros e mestiços vivendo além da escravidão, principalmente no meio urbano. Além disso, as fugas e formações de quilombos, muitos dos quais apoiados pela população pró-abolição, também já contribuíam para uma relativização da identificação do negro como escravo nos últimos anos do império. Um sujeito de cor negra ou parda poderia ser escravo, mas também livre ou liberto, como indicam as categorias dos censos do período.
Por outro lado, a tão famosa Lei Áurea assinada pela princesa Isabel não significou a igualdade em termos de inclusão e cidadania para negros e ex-escravos, ainda que as diferenças não fossem registradas pela legislação, pelos códigos e regulamentos institucionais de maneira geral a partir dessa data. Para muitos negros, pardos e outros, o lugar social marcado inicialmente pela escravidão não seria modificado em pouco mais de um século e algumas gerações. Na ausência de qualquer programa de integração dessa população pobre e praticamente analfabeta, boa parte desse contingente de cidadãos e seus herdeiros permaneceu excluída dos bens materiais e culturais durante muitos anos. Depois do 13 de Maio, muitas famílias continuaram como mão-de-obra nas mesmas fazendas onde tinham sido escravas. Alguns indivíduos migraram para os grandes centros urbanos, em muitos casos reforçando o número de subempregados ou "desocupados", segundo a terminologia da época, e lotando os cortiços e favelas que se formavam nas cidades. Alguns outros adquiriram consciência da sua condição e associaram-se para denunciar a situação e defender seu lugar na sociedade, como no caso da Guarda Negra, espécie de milícia que procurava proteger a liberdade dos negros e a personalidade da princesa Isabel, e da imprensa de identidade negra, que denunciava o problema e funcionava como um espaço de sociabilidade para essa população. Posteriormente, já nos anos 30, a fundação da Frente Negra Brasileira (FNB) iria politizar a discussão, buscando um espaço para o negro na esfera política. Tudo isso indica que havia mais diversidade do que se acreditava na inserção do negro na sociedade brasileira do pós-abolição. Esse passado de escravidão iria marcar também o debate em torno da construção da nação e do Estado brasileiro. Já em meados do século XIX, intelectuais, legisladores e cientistas mostraram-se preocupados com o perfil e a composição da sociedade brasileira, e com os modelos e projetos possíveis para a construção do país.Muitas das construções institucionais iniciadas com d. João VI e d. Pedro I foram incrementadas no Segundo Reinado. D. Pedro II era um monarca ilustrado e incentivador das artes e da ciência, tendo certa vez afirmado, parodiando o rei absolutista francês Luís XIV, "a ciência sou eu". Nesses governos, sobretudo após a independência, foram criados institutos de estudo e expandidas as universidades e academias, lugares onde se debatia sobre qual seria o projeto de sociedade possível e desejado no Brasil. Apesar da resistência de alguns setores, o fim da escravidão era tido como inexorável. Vários aspectos podem ser apontados como tendo contribuído para esse fim: as pressões internacionais, o fortalecimento do capitalismo industrial e a necessidade de mão-de-obra livre e consumidora, as idéias igualitárias oriundas do pensamento iluminista, a própria ação dos escravos, que manifestaram diferentes modos de resistir, por meio das fugas, dos quilombos e das revoltas durante todo o século XIX e em várias partes do mundo. A título de exemplo, a revolta de negros escravos que massacraram seus senhores tomando o poder na colônia francesa de São Domingos, hoje Haiti, ainda no início do século XIX, apavorava o imaginário dos grandes proprietários brasileiros. Definitivamente, as elites brasileiras não gostariam que o Haiti fosse aqui. Além disso, pode-se dizer que extinguir a escravidão era uma exigência do mundo dito civilizado e corresponder a essa demanda seria fundamental para colocar o Brasil no ritmo do progresso, de acordo com os conceitos da época.
As negociações entre os interesses de diferentes setores fizeram a abolição ser fruto de um processo gradual. Uma lei de extinção do tráfico foi assinada já em 1831, a partir de uma exigência inglesa. Porém, não chegou a ser aplicada, tendo surgido daí a expressão "para inglês ver". O tráfico só seria abolido de maneira efetiva em 1851, com a lei Eusébio de Queirós. Com o fim desse comércio, a grande mudança no país foi a acentuação do tráfico interno. Tornou-se mais comum do que nunca a venda de escravos das fazendas do Nordeste para o Sudeste cafeeiro, acompanhando o deslocamento do eixo da economia para essa região. Em 1871, foi promulgada a Lei do Ventre Livre, e, apesar do caráter moderado desta, os fazendeiros perceberam que não nasceriam mais escravos no Brasil. A escravidão estava com os dias contados. O "problema" da integração do negro na sociedade brasileira apenas começava. Seria o Brasil um país de negros e mestiços? Será que isso combinaria com a noção de país civilizado de padrão europeu que se pretendia para a ex-América portuguesa? Essas eram algumas questões sobre a identidade brasileira que intelectuais, médicos e cientistas sociais se colocavam no fim do século XIX e início do XX. O pensamento dominante na época era fortemente influenciado pelo evolucionismo e pela teoria de seleção natural de Charles Darwin. Esse biólogo britânico, observando o comportamento das espécies animais, desenvolveu uma teoria que explicava a modificação e evolução das espécies por meio de um processo de melhor adaptação ao meio, que seria sintetizada pela expressão "a lei do mais forte". Seu trabalho teve grande influência no pensamento moderno, sobretudo no que se refere à secularização, exterminando a idéia de que o homem teria sido criado por Deus. Porém, para alguns outros homens de ciência daquele tempo, o evolucionismo poderia também se aplicar ao comportamento humano, o que foi chamado de darwinismo social. Segundo as mais expressivas concepções dessa corrente, não somente o negro tende a ser visto como ser inferior ao branco na escala da evolução como o mestiço apresenta em si um problema. Alguns pensadores do darwinismo social chegaram a insinuar que o mestiço seria também infértil. Daí a origem da palavra mulato, termo oriundo de "mula", híbrido nascido do cruzamento do cavalo com o jumento. A explicação ideológica para isso seria a tentativa de desestimular as relações inter-raciais. No contexto brasileiro, a hibridação seria inevitável. Como a historiografia demonstra, o número de mulheres brancas vindas para o território brasileiro foi sempre inferior ao de homens, sendo a mestiçagem conseqüência disso. Seria preciso que os nossos cientistas e intelectuais pensassem em outros modelos.Dentro dessa concepção, um dos primeiros a tentar identificar, qualificar e diagnosticar o elemento afro-brasileiro foi o escritor, sociólogo e jurista Sílvio Romero, que entendia que o destino da população brasileira era tornar-se branca, já que na mestiçagem o tipo racial mais numeroso tende a prevalecer. Romero acreditava que o branco seria favorecido pelo fim do tráfico e pelo aumento da imigração de trabalhadores europeus. Outro brasileiro que se dedicou à questão nesse contexto, o médico e antropólogo Raimundo Nina Rodrigues, discordou da tese de Romero. Para ele, não seria possível estabelecer no Brasil uma civilização a partir da mistura entre o branco, o negro e o índio. Estes últimos eram tipos inferiores e não poderiam contribuir para tal ideal civilizacionista. Nina Rodrigues acreditava que a mistura entre raças diferentes criaria indivíduos fracos, que não se identificariam com o modo de viver de nenhuma das duas raças, gerando um tipo inferior. Acreditava que o Estado deveria legitimar as diferenças, para tratar de maneira mais adaptada "superiores" e "inferiores".
Essas propostas não foram utilizadas pela República, na Constituição de 1891 e nos Códigos Civil e Penal da época, que não faziam mais distinções entre "negros", "brancos" ou "pardos". Todos eram cidadãos. O problema seria a pobreza, a vadiagem, a mendicância e a capoeiragem, contravenções punidas pelos artigos 391 a 404 do Código Penal de 1890. Para o direito brasileiro, não era desejável haver uma população desocupada, sem dinheiro e sem lar. Os indivíduos nesse estado, muitos dos quais negros ex-escravos ou descendentes de escravos, poderiam ser enviados a diversas instituições, como às colônias correcionais ou mesmo ao Exército e à Marinha. Não foi o pensamento do darwinismo social que vigorou na concepção dessa legislação, mas com certeza estavam presentes as idéias de ordem e em grande parte a mentalidade higienista. Observa-se, além disso, que o estímulo dado pelo governo brasileiro à imigração de trabalhadores europeus no fim do século XIX e início do XX foi em grande parte justificado pela ideologia de branqueamento da população. Nos anos 30, enquanto as idéias eugenistas voltavam à moda na Europa, sobretudo a partir da experiência do nazismo alemão, no Brasil tendia-se para uma nova compreensão da sociedade, para uma abordagem culturalista. Já havia uma corrente de valorização do mestiço como representante da identidade brasileira desde a década de 1870, porém seria com o sociólogo Gilberto Freyre que esse modo de pensar ganharia maior expressão.Em seu clássico Casa-grande e senzala, Gilberto Freyre compõe uma história social e cultural do Nordeste agrário e escravista durante o início do período colonial, o que corresponde à fase de predomínio da economia açucareira. Nesse contexto, o menor número de mulheres e o caráter conciliador do colonizador português favoreceram o desenvolvimento da mestiçagem no país, diminuindo a distância entre a casa-grande e a senzala. O mulato seria o elemento de conciliação entre os extremos existentes. Além disso, Gilberto Freyre aposta na mestiçagem como o principal traço da identidade brasileira, fazendo uma leitura positiva da hibridação. Estão lançadas as bases para a ideologia da "democracia racial", posteriormente apontada como um mito pelas releituras de Gilberto Freyre.Esse pensamento parece ter sido bem aceito pelo Estado e pela população brasileira. Ao mesmo tempo que a idéia de democracia racial foi incorporada pelo senso comum e colaborou para a construção da própria identidade nacional, o Estado e as instituições receberam com boa vontade essa teoria. A crença numa contribuição igualitária do índio, do negro e do branco participa do mito fundador do Brasil. Além disso, essa igualdade também favorece o estabelecimento do Estado brasileiro que sempre se desejou: sob a impressão de que há igualdade entre as cores e diferenças, cria-se um código comum, evitando-se conflitos e embates. Dessa forma, o Brasil se parece mais com aquilo que gostariam que fosse, já sabendo como ele é.
Ser negro, preto, pardo, moreno, corado no Brasil
O conceito de raça para o ser humano foi desmontado por cientistas e geneticistas nos últimos anos. Não se pode dizer raça num sentido científico, mesmo que a palavra ainda exista para o senso comum ou para alguns movimentos reivindicatórios. Todavia, ainda é aplicada uma categorização pela cor. Para o IBGE, atualmente podem ser chamados de negros os cidadãos de cor preta ou parda que se identifiquem como negros. Mas não foi sempre assim.O trabalho da historiadora Ivana Stolze Lima demonstra que no Brasil imperial os censos e outras iniciativas de conhecimento demográfico encontraram dificuldades para se concretizar justamente porque questões relativas à cor e à condição da população brasileira eram problemáticas. Os censos apareceram como uma iniciativa do governo, inserida no espírito do tempo e nas tentativas de categorizar e conhecer típicas de meados do século XIX. Contudo, no início houve resistência da população, que receava um controle do Estado em suas vidas. Temia-se que os censos acarretassem tentativas de re-escravização ou de aumento de impostos. Os censos praticamente não funcionaram no período, quase não tendo valor estatístico para um estudo populacional. Porém, têm grande valor qualitativo, bem como outros documentos tais quais registros de batismos e casamentos. Nesses registros, sempre aparece a categoria "branco", sendo a população dividida em homens e mulheres. Para os negros, há outras subcategorias, como a de escravo, livre, liberto, negro ou pardo. O termo mulato aparece em menor ocorrência, mas sempre substituindo o termo pardo. O censo geral do império, em 1872, buscava categorizar a população quanto a "raças", admitindo também a categoria "caboclos", além de "branco", "pardo" e "preto". Porém, em outros documentos oficiais, começa-se a omitir a categoria "cor" a partir de meados do século XIX, o que indica, mais uma vez, que esse critério poderia causar constrangimento e que já não havia mais uma relação de "sinonímia entre ser branco e ser livre".No início do século, instituições como a Marinha contavam com grande participação de negros e mestiços. Na primeira iniciativa de identificação, com a criação do Gabinete de Identificação da Marinha em 1908, consta que 71% dos identificados como soldados navais naquele ano eram classificados como negros ou pardos, havendo 27% de brancos, dentre os quais brancos "claros" ou "corados". Essas identificações não eram fixas, no entanto. Um mesmo indivíduo identificado duas vezes, em 1908 e 1912, poderia passar de "negro" para "pardo" ou "moreno", ou vice-versa, de acordo com os critérios do classificador do dia. Da mesma forma, dentre os brancos, alguns soldados poderiam ser identificados como "branco corado" ou "moreno corado". A categoria "mulato" não aparece citada. Isso indica que a questão da cor não era assim tão fácil de ser identificada no Brasil do início do século XX.Mais recentemente essa dificuldade foi novamente comprovada. Um levantamento feito pelo historiador Clóvis Moura, após o censo de 1980, indica que foram citados 136 nomes de cores diferentes pelos brasileiros inquiridos. Alguns brasileiros declararam ter cor "acastanhada", "café-com-leite", "branca-suja", "burro-quando-foge", "cor-de-canela", "cor-de-cuíca", "sapecada", dentre muitas outras. Segundo o autor, essa pluralidade atestaria, mesmo que por meio do humor, que o brasileiro foge de uma identificação étnica.Outra pesquisa recente, elaborada pela equipe do geneticista Sérgio Pena no início da década, comprova que 87% dos brasileiros receberam ao menos 10% de genomas africanos. Ao mesmo tempo, os mesmo índices de ancestralidade genômica indígena ocorrem somente em 24% dos brasileiros. Segundo os resultados da pesquisa, há mais sangue negro do que indígena correndo nas veias dos brasileiros, e a mestiçagem seria um fato comprovado. Mais do que isso, o estudo prova que tanto intelectuais quanto cientistas ainda estão muito interessados no assunto.
Saiba Mais
Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Ivana Stolze Lima. Arquivo Nacional, 2003.
Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor. Ali Kamel. Nova Fronteira, 2006.
Negros e política (1888-1937). Flávio Gomes. Jorge Zahar, 2005.
O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. Lilia Moritz Schwarcz. Cia. das Letras, 1993.
Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Kabengele Munanga. Autêntica, 2004.
Sílvia Capanema P. de Almeida é jornalista e doutoranda em história na EHESS, Paris. Ensina na Universidade de Paris X, Nanterre.

A Revolta do Malês.

Olá colegas!
Achei interessante postar esse evento que ocorreu em nossa história e ainda poderá ajudar na elaboração de artigo de algum colega.

Os 170 anos da Revolta dos Malês
Em 25 de janeiro de 1835, explodiu uma das mais importantes rebeliões de negros e negras da história do país: a Revolta dos Malês. Praticamente omitida pela historiografia oficial, a Revolta é uma lição de garra e luta pela liberdade. Mas também da perversidade das elites dominantes.

Walter Bernardino e Karina Correia, da Sec. de Negros e Negras de Recife (PE)


Uma explosão pela liberdade e contra a intolerânciaA Revolta foi planejada por um grupo de africanos muçulmanos — negros de origem haussa e nagô, chamados de malês, devido ao fato de que, em ioruba, muçulmano é imale — formado, dentre outros, por Ahuma, Pacífico Licutan , Luiza Mahin, Aprício, Pai Inácio, Luís Sandim, Manuel Calafate, Elesbão do Carmo, Nicoti e Dissalu. A data escolhida, o amanhecer de 25 de janeiro, coincidia com um dia importante do ponto de vista religioso: o fim do mês sagrado muçulmano, o Ramadã, e dos tradicionais festejos religiosos dedicados a Nossa Senhora da Guia, que manteriam ocupados os católicos.
O objetivo da conspiração era libertar seus companheiros islâmicos e negros em geral e matar brancos e mulatos considerados traidores. Uma meta que traduzia a complexa combinação entre escravidão negra e perseguição religiosa, imposta pelos colonizadores católicos.
Dois aspectos singulares influenciaram todo o processo. Em primeiro lugar, diferentemente da grande maioria dos negros (que compunham mais da metade dos cerca de 20 mil habitantes de Salvador) os malês sabiam ler e escrever em árabe. Além disso, boa parte dos líderes da Revolta, era formada por “negros de ganho” (escravos que faziam serviços urbanos, artesanato ou vendas, recebendo algo por isso) o que não só facilitava sua circulação pela cidade, mas também possibilitou que muitos deles comprassem sua alforria e, nos meses que anteriores à Revolta, adquirissem armas.
Nos dias que antecederam o levante, notícias davam conta de uma intensa movimentação, sobretudo de escravos vindos do Recôncavo Baiano para Salvador. Viriam unir-se ao líder Ahuma, que havia sido preso e estava sendo brutalmente castigado. Além disso, o respeitado Alufá Pacífico Licutan, vítima de constantes maltratos por parte de seu “senhor”, também encontrava-se preso na cadeia municipal. É certo que as agressões sofridas por esses dois mestres foi o estopim para por em prática a revolta há muito planejada.
O número de pessoas envolvidas na preparação da rebelião (entre libertos, escravos, islâmicos e gente que professa outras religiões) varia de acordo com a documentação entre 600 e 1.500, a grande esmagadora deles nascidos na própria África.
Traição e massacreAntes mesmo de eclodir a Revolta foi denunciada por uma negra ao juiz de paz. A polícia invadiu, na noite de 24 de janeiro, a residência de Manuel Calafate, um dos locais de encontros e reuniões de africanos de fé islâmica. Resistindo à polícia, partiu dali um grupo de escravos que tentou assaltar a cadeia, ainda então instalada na parte baixa do prédio da Câmara Municipal. Outro grupo procurou avisar escravos e libertos malês que trabalhavam nas residências de cônsules e comerciantes estrangeiros. Reuniram-se cerca de 50 a 60 homens armados com pistolas, lanças, espadas e facas. Foram esses os que, primeiro, combateram com a polícia e atacaram o quartel que controlava a cidade.
De forma desorganizada, a Revolta tomou a cidade, mas, devido à inferioridade numérica e de armamentos, acabou sendo massacrada pelas tropas da Guarda Nacional, pela polícia e por civis armados que estavam apavorados ante a possibilidade do sucesso da rebelião negra.
Durante os confrontos, morreram cerca de 70 negros e aproximadamente 10 soldados das forças repressoras. Com a derrota, centenas foram presos, sendo condenados à deportação (muitos para a África, algo até então inédito no Brasil), a brutais castigos ou à pena de morte. Na seqüência do evento, instalou-se na Bahia, sobretudo em Salvador e Santo Amaro, a mais generalizada e cruel repressão contra os escravos que estendeu a perseguição a outros malês. O temor provocado pela rebelião foi tamanho que a corte imperial proibiu a transferência de qualquer escravo baiano para qualquer outra região do país.
Uma intifada negraMuitas vezes apontada como uma rebelião de caráter puramente religiosa, a Revolta, na verdade, foi muito mais complexa. Como lembra João José Reis, autor Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, em uma entrevista publicada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ``com o risco do anacronismo, diria que a revolta estava mais para Intifada do que para Jihad, embora a guerra santa tenha sempre algum lugar no coração de um muçulmano que se rebela``.
Além disso, o processo só pode ser entendido dentro do quadro de rebeliões negras que sacudiam a Bahia, desde o início do século em sucessivos levantes (1807, 1809, 1813, 1826, 1828 e 1830), envolvendo as mais diversas etnias e grupos. Em relação à predominância dos malês, favorecida pelos aspectos mencionados acima, também é importante lembrar que vários documentos apontam para o fato de que eles viam os demais negros como aliados em potencial.
Acima de tudo, apesar de derrotada, a Revolta serviu como inspiração fundamental para as lutas contra a escravidão, não só pelo exemplo que forneceu, mas também pelo envolvimento de muitos de seus líderes e participantes, como Luiza Mahin (veja abaixo) em outros processos. Uma lição que para nós, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, continua viva na necessidade de travar uma luta sem tréguas contra o racismo, toda forma de intolerância e, particularmente, contra o sistema que alimenta estas práticas. O colonial, no passado; o capitalista, na atualidade.
Luíza Mahin: mulher guerreiraEsta africana guerreira teve importante papel na Revolta dos Malês. Pertencente à etnia jeje, alguns afirmam que ela foi transportada para o Brasil, como escrava; outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu a luz a um filho, Luis Gama, que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista e escreveria as seguintes palavras sobre sua mãe: ‘‘Sou filho natural de uma negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã’’.
Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX, dentre elas a chamada Grande Insurreição, de 1835. Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Temas e direcionamento dos trabalhos

Boa tarde!

Acabamos não criando um tópico específico para que os colegas manifestem-se a respeito dos temas dos seus trabalhos.

Agora tem: é aqui. Vale também como fórum, para os que quiserem dar palpites, de preferência de ajuda e indicações literárias aos colegas que postarem seus temas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Leituras para a semana

Boa noite!

Depois que eu já tinha montado o arquivo .pdf do texto que faltava, retirado de um livro do DAMATTA, resolvi rezar para São 4Shared para ver se tinha algo com visual melhor.

Acabei localizando os dois livros inteiros lá, postados por almas generosas. Pelo visual mais limpo que as xerox que conseguimos, sugiro baixarem os arquivos, selecionando os capítulos respectivos para imprimir. Cliquem nos nomes abaixo. São eles:

(Ler cap. 3: A ilusão das relações raciais)

(Ler cap. 4: Você sabe com quem está falando?)

Boa leitura a todos!

sábado, 18 de setembro de 2010

Texto do Roberto Damatta

Boa noite!

Nossa colega Lúcia me enviou as imagens da xerox fornecida pelo professor e eu montei em um arquivo .pdf. Ficou um pouco grande (10MB), mas isso se deve ao fato de serem imagens e também à quantidade de páginas.

Já está disponível para download aqui NESTE LINK.

Amanhã postarei o outro texto, assim que eu montá-lo.

Boa leitura a todos!

domingo, 12 de setembro de 2010

Texto "Famílias escravas...", do prof. Washington

Boa noite, colegas!

Não sei se todos tiveram a mesma visão, mas o texto Famílias escravas... de autoria do prof. Washington estava com uma formatação que não aproveitava bem o papel.

Tomei a liberdade de desmontar o original e remontá-lo em um layout onde duas páginas do texto são impressas em uma de A4 na horizontal, como no exemplo, ao lado.

Quem ainda não imprimiu e quiser experimentar esse layout, pode baixá-lo NESTE LINK.

Um abração e boa semana a todos!

sábado, 11 de setembro de 2010

Aula do dia 16 de setembro

O professor Washington passou e-mail para todos, solicitando lermos o primeiro capítulo de Casa Grande e Senzala, do Gilberto Freyre.

Não é um livro muito ace$$ível e também nos sebos não é fácil encontrá-lo. Como é imprescindível e bibliografia básica para nosso curso, fucei na internet e achei uma versão digitalizada. Por ora consegue-se baixá-lo AQUI em formato PDF.

A propósito, o http://www.4shared.com é um site de hospedagem com abundância de materiais de todos os tipos (livros, vídeos e músicas). Afora os aspectos legais e o terrorismo dos órgãos de direitos autorais é uma boa fonte alternativa, sobretudo quando não conseguimos os conteúdos de outra forma ou é dificultoso adquiri-las por questões financeiras.

Boa leitura a todos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Introdução

1. Ementa (sumário):

Serão abordadas neste módulo as interações entre populações de diferentes etnias e raças presentes na sociedade brasileira e as instituições, levando em consideração a luta pela cidadania ao longo do século XX. O recorte será a questão dos povos indígenas, dos afro-descendentes, dos europeus, asiáticos e latino-americanos em diferentes contextos políticos e sociais, na luta para a consolidação de sua identidade e autonomia.

2. Objetivos Gerais:
  • Discutir o processo de formação da sociedade brasileira através da leitura de autores considerados clássicos;

  • Abordar os fenômenos que culminaram na formação de uma sociedade marcada pela diversidade étnico-racial e pelas tensões causadas em função ou a partir dessa diversidade.